

Eu tinha desistido de escrever. Depois que o meu diploma passou a valer menos de R$ 1 e que tantas outras coisas impensáveis acabaram acontecendo, o desânimo foi maior do que a fé e o teclado só me atraia para a mera reprodução do factual. Nada de divagar, divergir, discutir e tantos outros verbos da primeira à terceira conjugação que começam com a letra D, de Daniele e significam de uma forma ou de outra, “inconformismo”.
Eu pensei em falar do Sarney, do Renan, da morte espetacularizada do mero mortal Michael, do divórcio litigioso entre Wagner e Colbert, da síndrome de ACM de Geddel, do ringue que deu novo sentido ao Vale-Tudo com os atletas em treinamento intensivo na Câmara de vereadores. E olhe que eles acabaram de sair das férias. Enfim, tantas coisas. Porém, nada, nadinha foi capaz de me motivar. Até a noite de ontem, voltando para casa como faço todos os dias.
Trafegando de carro pelo prolongamento da avenida Maria Quitéria, uma moto com dois homens em cima, passa por cima do canteiro central, onde os pedestres fazem caminhadas ou passeiam, e tenta atravessar a avenida numa atitude irresponsável bem conhecida no trânsito da cidade. Até aí, apenas uma imprudência infeliz, que poderia ter causado um grave acidente. O motorista do carro então reduz a velocidade para que o motoqueiro nada simpático recue sua moto. Levantando os braços, em um gesto comum o motorista tenta fazer o motoqueiro refletir: qual a necessidade disso?
O motoqueiro e seu parceiro demostraram claramente que não gostaram do “incômodo”. Tentaram nos ultrapassar em velocidade mas desistiram e reduziram para deixar bem claro o que pensava. Tirou uma arma de dentro do short como se dissesse: “Ei, aqui você é refém! Eu estou errado mas, sou o certo.” Não reagimos. O poder de comunicação daquele indivíduo valeria uma nova teoria da comunicação. Nenhuma palavra, mas muita, muita informação.
Naqueles poucos segundos de terror eu vi que não deveria me calar. Vi que aquele homem é fruto de tudo o que eu não disse todos esses dias. Fruto do meu silêncio que exita em tranformar-se em verbo. Esta situação vem do Sarney, do Renan, de Wagner, Colbert, do Geddel, do finado ACM, do Lula, da Câmara Municipal, do Prefeito, do Michael Jackson, de mim e nem se esquive, de você também.
Nossa postura privilegiada de educação e noção de civilidade equivale àquela arma. Essa é a nossa justiça. O velho 38, é a dele. A dele, mata. A nossa pode sempre trazer vida, renovo.
Desisti de ficar calada. Quero colaborar para fazer justiça com as minhas próprias mãos - e cérebro. Pode não dar em nada, mas a minha consciência, que é juíza mui severa, será benevolente com o meu possível fracasso.
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