

A insuficiência cardíaca (IC) é um dos maiores problemas causados por doenças no coração. Em nosso meio é mais conhecida como “coração de boi” ou “coração inchado”, em geral porque o coração cresce e fica “fraco”, não tendo força suficiente para “bombear” o sangue e levar o oxigênio para os outros órgãos do nosso organismo. Nessa situação, a pessoa sente-se cansada, com falta de ar, fadiga, pode ter inchaço nas pernas, ficando impossibilitada de exercer tarefas rotineiras e, por conseguinte, de manter-se no trabalho. Além disso, tem que usar uma quantidade grande de remédios na tentativa de melhorar a qualidade de vida. E isto pode custar muito dinheiro!
A I.C. é um grave problema de saúde pública em todo o mundo. Nos EUA acontecem 550.000 novos casos por ano e é a principal causa de internamento hospitalar entre os idosos. No Brasil existem, atualmente, cerca de dois milhões de pacientes com a doença e 240.000 novos casos são registrados anualmente - dados do governo federal.
Existem várias causas para a pessoa desenvolver a IC. Em nosso meio, a doença de Chagas ainda é uma das mais freqüentes, infelizmente – e este tópico merecerá outro artigo, em outro momento. Outras causas importantes são a hipertensão arterial, o diabetes mellitus e o infarto do miocárdio. Todas estas são potencialmente preveníveis, ou seja, podem ser evitadas e adequadamente tratadas para evitar suas temíveis complicações, entre elas a insuficiência cardíaca.
A despeito da melhora no tratamento, a mortalidade após o início da IC permanece alta, variando de 20 a 50%. Portanto, o que deve ser feito é o investimento na prevenção. Sai muito mais barato!
Estima-se que 1 em cada 5 adultos (20%) com 40 anos de idade irá desenvolver IC durante o resto da sua vida. Por outro lado, vários fatores que estão ligados à IC podem ser modificados através de mudanças no estilo de vida. Por exemplo, manter o peso adequado, não fumar, realizar atividade física de forma regular e manter uma dieta saudável diminui a chance de a pessoa ter diabetes, hipertensão e infarto do miocárdio que, como dito, podem causar a IC.
Recentemente foi publicado um artigo no JAMA (uma das mais respeitadas revistas médicas do mundo), no qual os autores avaliaram qual a associação entre fatores ligados ao estilo de vida e o risco de desenvolver IC em 20.900 homens que, no início do estudo, tinham em média 53 anos (mínimo: 35 e máximo: 63 anos) e eram aparentemente saudáveis. Estes foram acompanhados durante 22 anos. Foram avaliados 6 fatores modificáveis ligados ao estilo de vida: peso corporal, exercício, consumo de álcool, fumo, consumo de cereais no café da manhã e consumo regular de frutas e verduras. O risco de desenvolver insuficiência cardíaca foi de 21% naqueles homens que estavam acima do peso adequado, fumavam, consumiam álcool, não faziam atividade física, não consumiam cereais no café da manhã e não tinham o hábito de comer frutas e verduras (1 em cada 5 destes desenvolveu a IC). Aqueles que aderiram a pelo menos 4 dos fatores citados tiveram 10% de risco de desenvolver IC no restante da sua vida (1 em cada 10). Portanto, o risco foi o dobro naqueles que não se cuidaram.
Este estudo demonstrou que um estilo de vida adequado diminuiu muito o risco de desenvolver insuficiência cardíaca. Embora a medicina tenha evoluído bastante e tenham surgido medicamentos altamente eficazes, estudos como este mostram que a prevenção continua sendo o melhor tratamento para qualquer doença.
*Prof. Dr. André L. C. Almeida
Post. Doct. Fellow do Johns Hopkins Hospital – USA (em curso).
Mestre e Doutor em Medicina pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública.
Prof. de Cardiologia da Universidade Estadual de Feira de Santana-Ba.
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