

Eu não sei nem por onde começar. Na verdade, menos ainda por onde terminar. Existem coisas na vida que se me contassem eu realmente não acreditaria. Porém, decididamente, essa opção não existe.
Vamos, primeiro, a fatos hipotéticos: São Paulo. Um dia chuvoso de setembro. Em uma pequena casa em um bairro conhecidamente perigoso membros do PCC se reúnem para tramar mais mortes, assaltos e incursões nos presídios do estado. De repente, um vizinho com uma câmara na mão resolve entrar na pequena saleta, driblar os fuzis arrumados no chão e armar um tripé. Sorri sem nenhum constrangimento e dá “play”. Em segundos, algum astuto discípulo do Marcola acaba com o incômodo apenas com um tiro. “Nada de filmagens aqui”, diz ainda soprando o cano fumegante, enquanto os demais se esquivam do sangue no chão.
Outra hipótese: um jovem gerente resolve estender o expediente com a nova estagiára do banco. Direto ao paraíso dos amantes proibidos, o motel mais próximo, gerente e funcionária entram no quarto quase nus. De repente alguém bate na porta. Ele, temeroso, indaga quem é. A resposta: serviço de registro audiovisual. Obviamente ele não abre a porta.
Agora, a verdade: Câmara Municipal de Feira de Santana. Também questionavelmente conhecida como Casa da Cidadania. Um dia qualquer de sessão. Muita baboseira, pouca utilidade. Anos, muitos anos depois do fim da ditadura militar, a arrogância numa forma fantasmagórica sai do trono e proíbe, naquele espaço PÚBLICO, a filmagem das sessões e sua conseqüente transmissão. Assim, como se ali fosse a casa da mãe Joana, delimitando tempo e espaço para o trabalho jornalístico que tem como objetivo levar ao cidadão o que é seu – a informação -, a TV Comunitária não pode mais filmar as sessões da Câmara. Justificativa? Nenhuma. Legitimidade? Nem se comenta...
Será quese eu, Daniele Britto, cidadã feirense que desde a idade que podia votar, nunca justificou um voto, chegar lá com minha câmera e resolver filmar as sessões da Casa que existe em prol da minha existência vou ser impedida? Acho que ou fazer o teste. Faça você também. Neste filme você e eu somos atores principais. O resto são meros coadjuvantes.
Já nos basta aquele vidro inédito na história daquela Casa, que tantos homens ilustres e torpes abrigou, agora querem cercear a circulação da informação que por si só traduz o que acontece e o que se ouve naqueles microfones. Que soem as trombetas do Apocalipse! Lá vai o povo, de tarrafa na mão pra pescar piaba!
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