

Já comentei aqui nesses espaços cibernéticos mui gentilmente cedidos pelo pessoal do Bahiagora (valeu Velame!) acerca de um dos pensadores que mais me fascina ultimamente: Zygmunt Bauman, autor de Modernidade Líquida. Diz Bauman que o mundo hoje em dia é líquido, ou seja, tudo flui rapidamente, não nos dando muito tempo para pensar, refletir. Para ele isso se configura em qualquer espaço da ação humana, seja no trabalho, no amor, na família, nas cidades, no mundo, enfim. A internet é um fator ou uma conseqüência disso tudo, dessa fluidez exacerbada em que nos debatemos no dia-a-dia. Mas podemos identificar outros elementos dessa rede, como a estética televisiva quebrada da MTV, revolucionária nos anos 80, mas ainda hoje paradigmática das TV´s em geral. Ou então, ainda no âmbito das artes visuais, os roteiros elaborados das séries televisivas atuais. Lembram os mais velhos que mesmo os desenhos eram simples, Tom na maioria das histórias perseguia o Jerry, o Papa-léguas fugia do Coyote, Pernalonga era sempre o espertinho. Os super-heróis eram heróis e os bandidos eram vilões. Daí veio um recorte mais complexo, com os X-men, que são heróis, mas são perseguidos pela humanidade, o Batman e o Homem-Aranha têm crises existenciais e mesmo desenhos simples ganharam sofisticado enredo, cujo exemplo mais emblemático para mim é a Caverna do Dragão, aquele desenho no qual o grupo de crianças e adolescentes preso numa terra encantada nunca consegue voltar para casa após as aventuras e é desafiado o tempo todo pelos enigmas do tal mestre dos magos, aquele baixinho feio. Ah tá, mas o argumento é chupado de séries como Perdidos no Espaço, Terra de Gigantes ou Planeta dos Macacos, qual a novidade disso? A novidade está justo na insinuação de teorias conspiratórias entre os fãs da série, que juram que o malvado da história é justamente o mestre dos magos que não deixa os caras voltarem... Nas séries atuais, destacam-se 24 Horas, com seu ritmo frenético e mudanças vertiginosas de roteiro onde qualquer um de mocinho vira vilão e o sempre citado argumento de Lost, aquela série dos caras perdidos na ilha, que de tão imbricado gera discussões filosóficas acaloradas mundo afora. No cinema, roteiros quebrados são febre de há muito tempo. Alguns são paradigmáticos, como Pulp Fiction (Pulp Fiction, 1994) de Tarantino, no qual um personagem é morto numa cena e aparece vivo em outra. Mais recentemente tivemos I´m Not There (Eu não estou lá, EUA/Alemanha, 2007) do diretor Todd Haynes, uma bela homenagem ao bardo do rock/folk americano, Bob Dylan. A novidade deste filme é que Dylan é retratado por diversos atores, inclusive mulheres, como Cate Blanchett, que valeu indicação ao Oscar de atriz coadjuvante. E assim, multifacetando Dylan, que já era um mosaico com diversas fases na sua vida, tenta-se contar sua história. O problema do roteiro do filme é que essa busca vertiginosa por essa multidimensionalidade quebra qualquer fio condutor, por mais tênue que seja, que proporcione a fluidez necessária a uma adequada percepção do homenageado. Acho que aí está o problema da fluidez. Em excesso, como vem sendo praticada, nos faz perder a essência. E a partir daí acredito num contra-movimento do Homem ao buscar algumas pedras, algum porto que se permita aguardar para ver a corrente fluir, às vezes turbulenta demais para nós mesmos. Talvez seja problema da nossa capacidade de apreender as coisas. Pois, se por um lado essa fluidez da vida moderna nos leva em queda vertiginosa em velocidades supersônicas, por outro nos instiga o cérebro em tramas mais complexas. Assim, para as crianças o natural é essa fluidez, não a essência. É a complexidade, não a calmaria. Costumo dizer que as novas gerações vêm com um chip especial, core dez duo, enquanto nós cá rodamos em velhos 386, se muito. De fato, bombardeados sistematicamente por estímulos visuais, via internet, playstations e nintendos da vida, pode-se até perguntar por que o futebol ainda desperta tanto interesse nessa nova geração.
Talvez o futebol tenha sabido se reinventar enquanto indústria de entretenimento, talvez o futebol brilhe ainda porque é multifacetado. E por que é, tal como a net, world wide... E porque, como dizia mestre Nelson, possui dentro de si mais da condição humana do que uma tragédia de Shakespeare.
Mas eu dizia que a modernidade da vida líquida nos impõe fazer escolhas rápidas e, como toda escolha, dolorosas. Tal foram as que me fizeram estar ausentes do Jóia nos dois últimos compromissos do Touro, no domingo, contra o Atlético e quinta contra o Madre de Deus. Poderiam os mais incautos se apegar à minha última citação de Cioran na crônica passada “o ceticismo é a elegância da ansiedade” para alegar que havia eu desistido do Touro. O não escrito da crônica de domingo a tempo só endossaria essa posição. Pois repilo quaisquer insinuação nesse sentido. Na quinta, não estive lá por motivos profissionais. E antes, no domingo, não fui ao estádio por motivos pessoais, ao preferir desfrutar da companhia de parente que se encontrava em visita à cidade, e com certeza foram momentos mais prazerosos do que ver a apatia taurina ao pastar naquela tarde de domingo. Claro que o ceticismo ajudou no processo, e impulsionou uma certeza de mau resultado que os rádios do boteco onde assuntávamos a vida só fizeram confirmar. Engraçado que ali passei a ver onde se escondem aqueles torcedores que se espraiam sobre garrafas e tira-gostos a admirar futebol global, mas ao me verem vestindo o manto sagrado tricolor faziam reverência: poxa quanto tá o jogo do Flu? É contra quem hoje? Como tá o time? Que Deus tenha piedade dessas almas ignaras que chafurdam no misticismo clubístico, venerando equipes de terras além, terras nas quais muitas vezes nós nordestinos somos vítimas de um não escondido preconceito.
Pois ao ouvir o relato via celular de Samuel, o companheiro de viagens Bahia afora para ver o Touro, sobre como foi a partida, deparo com uma desolação de ex-combatente... ”O time tá apático, não corre, não faz nada. Parece até que tão querendo queimar o técnico.” Ponderei com meus botões aquilo que o ceticismo cioranístico já tinha me feito ver: primeiro, o Flu jogava novamente desfalcado, e ainda com aquela defesa peneirística já aqui citada. Segundo, de há muito o time atleticano não nos oferecia resistência e, mesmo querendo manter a freguesia, sabemos que é um clássico, e que eles uma hora nos iriam vencer. Ainda mais que no banco estava o retranqueiro Nazareno, de tantas angústias passadas no banco tricolor... De fato, o um a zero, com direito a protesto da torcida era extremamente necessário. Sim porque ao longo dos dias antes do jogo o Flu ficou se apegando a desculpas (desfalques, adversários mais fortes, etc.) e com isso buscando uma resignação canina perante o fatalismo das derrotas. Ora meus caros, o boi é um animal resignado, de fato. Seu destino é o matadouro. Mas o Touro não! O Touro é exatamente o que diferencia, é o orgulho bovino a provocar o estupor da muchedumbre numa Plaza de Toros. Resigno-me eu então. A saber que aquele um a zero era absolutamente necessário. Nunca uma derrota foi tão absurdamente pertinente para que o Touro seguisse seu caminho. Fora a última puya a sangrar-lhe o dorso. O Touro contrito de feridas, não iria aceitar impávido mais um revés. Acreditei, com minha certeza de profeta, na vitória do Flu.
Ainda mais quando o Madre de Deus ousou provocar o Incantado com mais um daqueles gols bobos, que só nos serve para alertar quanto ainda carecemos de um melhor goleiro. Pois na falha de Marcão, o fantasma de Goethe, o Fausto negro, empurra a bola para o gol e ameaça-nos com novo pesadelo. Mas daí brilha nosso melhor jogador, o eficiente Ademir. Nosso lateral acerta dois cruzamentos daqueles de reforçar a já consolidada comparação com Zanata e nos dois o valente Ermínio abusa. No primeiro, o vôo magistral de cabeça, sem chance para o goleiro. No segundo, num ato inconseqüente para quem está no sacrifício de uma contusão na coxa, e que só demonstra quão guerreiro ele é, a virada mais que perfeita, um voleio, quase uma meia bicicleta que aturdiu a zaga petroleira. Vem o segundo tempo, e o medo do time voltar a se arrastar em campo com aquelas bolas de preso que os fantasmas de filme de sessão da tarde exibem. Mas foi o fantasma goethiano Fausto que foi expulso, após uma falta em Advaldo e finalmente descobrimos Sóstenes, o calvo. Uma falta magistral e nosso personagem bíblico é saudado pelos colegas com uma saraivada de tapinhas... Flu 3X1. Para completar a festa com ares de chocolate, Advaldo bate escanteio, Sóstenes a la Sócrates, de calcanhar, coloca o amuleto Timbó na cara do gol, e este, após alguma firula, põe entre as pernas do goleiro. Flu 4X1, Incantado e Aruá.
Na música tema do filme de Haynes, cantada pelo Sonyc Youth, Dylan chora não estar lá, junto da amada (Of course. I'll not deceive her. I'm not there, I'm gone. It's all about confusion. And I cry for her.) Pois eu ouso não chorar por não ter presenciado nem a dor nem a delícia do Flu. Porque sei que o Touro me acompanha em essência, tão somente Flu-indo em mim.
Cristóvão Cordeiro – é professor, engenheiro, torcedor taurino e não estava lá, mas vai estar...
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