

Ela não é e nunca foi Princesa. Se fosse uma mulher, Feira seria uma lavradora, uma fateira do Centro de Abastecimento, uma vendedora de rua, uma gata borralheira, de cabeça e pensamentos erguidos.
Ser princesa é muito fácil. Um belo sorriso, um bom vestido, sombra e água fresca. Mas Feira cheira a suor e se cansa ao entardecer. A lida diária é árdua e a cada dia o sacrifício tem que ser redobrado.
Feira é mãe de muitos filhos e se fosse uma mulher de verdade, sovaria alguns deles com a autoridade de uma matriarca que não aceita nenhuma desculpa para o desrespeito, mentira e falta de vergonha. Choraria a saudade de outros e nunca esqueceriam os que a história teima em apagar. Feira, sem dúvida, teria parido todos eles de parto normal. Feira, certamente entende de dor e alegria.
Feira se fosse mulher, teria o sobrenome de Santana, é verdade. Mas a fé em si mesma seria maior do que qualquer outra coisa. Não por se achar santa, mas por acreditar na força das suas calejadas mãos e ombros robustos, que carregam mais de um século de lutas e história.
A mulher personificada em Feira seria hoje, uma velha senhora, simples mas elegante com os seus cabelos brancos, usando vestido de botões pérola, sandálias confortáveis e diria sempre que aprendeu que o silêncio é um discurso que devemos fazer ao menos uma vez nas nossas vidas.
Hoje, se fosse de carne e osso, Feira olharia para si e veria que a pequena menina que corria na vila tornou-se uma mulher. Teria na sua pele a luz de tantos sóis e a serenidade da noite morna, quieta. Gostaria, creio, de suco de tamarindo, comida com pimenta e farinha.
Feira seria uma sábia, prudente, de sorriso discreto e voz grave. Feira não olharia com distinção as suas partes, mas homogeneizaria todas as suas diferenças em seu seio, numa linda e inesquecível canção de ninar.
Parabéns à minha cidade. Minha majestade sem coroa. À minha essência e verdade.
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